Corpo e Cidade: uma pequena etnografia da prostituição em Campinas (SP)
Diana Helene

Arquiteta e Urbanista
Mestranda em Planejamento Urbano e Regional,
Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - USP


 
O texto partiu de um ensaio realizado na disciplina “Antropologia nas Cidades”, ministrado pela professora Suely Kofes na Pós-graduação em Antropologia Social da Unicamp. O intuito do trabalho é encontrar os pontos comuns entre a prostituição e a segregação espacial, relacionando a criação do bairro “Jardim Itatinga” e as prostitutas do centro da cidade de Campinas. A etnografia foi realizada durante as visitas e atividades da “Associação de Mulheres Profissionais do Sexo de Campinas”, hoje nomeadas “Associação Mulheres Guerreiras”, junto a qual realizei um trabalho de extensão universitária pela Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Unicamp. O trabalho de campo se limitou aos encontros ligados de alguma maneira aos trabalhos desta associação que, apesar de atrair uma grande rotatividade de profissionais do sexo para suas reuniões e outros eventos, mantinha como freqüentadoras fixas cerca de cinco delas. Essas “meninas” , como elas mesmas se denominam, trabalham na região central da cidade e foram minhas principais informantes. Além das informações coletadas acompanhando seu trabalho nas praças, a própria história do bairro Jardim Itatinga foi (re)construída, ou "reinventada", com informações obtidas em campo no centro da cidade, visto que muitas das informantes já trabalharam na zona ou mantém alguma relação com esse bairro periférico. Também acompanhei os eventos realizados pela associação para as prostitutas do Itatinga, como bazares, distribuição de preservativos etc.
 

 
 
A "invenção" do Jardim Itatinga
 
 
O bairro “Jardim Itatinga”, na região sudoeste de Campinas, foi estrategicamente estabelecido para ordenar a localização das profissionais do sexo no espaço urbano,  tornando-se umas das maiores zonas de prostituição do Brasil. Dados do Centro de Saúde do Jardim Itatinga indicam que trabalham cerca de 1,9 mil profissionais do sexo no local. Uma das mais fortes características do bairro em relação a outras zonas ou centros de prostituição está no fato de que as prostitutas residem no mesmo bairro em que trabalham, muitas vezes morando na própria casa ou boate em que fazem os programas. As atividades de prostituição acontecem intermitentemente, durante o dia ou à noite, em praticamente todas as ruas do bairro. Apenas o caminhar pelo Itatinga e ser mulher já configura a possibilidade de um programa e os carros em constante circulação, em busca de parceiras, abordam todas mulheres presentes na área. O bairro é tão homogeneamente constituído que as exceções -- as poucas pessoas moradoras da região que não estão ligadas a prostituição -- sinalizam as portas de suas casas com placas onde se lê: "casa de família".

 
 
Essa configuração espacial aponta para uma legitimação dos “territórios do sexo”, localizando na cidade uma área especifica na qual a sociedade aceita as movimentações da prostituição: homens e mulheres com poucas roupas, travestis, o mercado do sexo, os prostíbulos etc. 
 
 
 
Antes da invenção do Jardim Itatinga, a prostituição na cidade de Campinas acontecia nas “casas de tolerância” espalhadas pela cidade e nas vias publicas, em frente a residências, escolas, igrejas, dentro de restaurantes e bares etc (Mazzariol, 1977, p. 14). Por volta dos anos de 1960, a cidade havia crescido sem ainda ter se iniciado sua expansão em direção à periferia e, assim, as classes sociais se aglomeravam e se misturavam no espaço urbano. As prostitutas estavam distribuídas espacialmente por toda a cidade, circulando dia e noite nas ruas, bares, casas noturnas e boates. Além de estabelecer uma “afronta aos valores morais da família cristã” e da sociedade burguesa, um dos principais argumentos para excluí-las do espaço urbano era ode que sua livre distribuição pela cidade criava uma “situação social de ambigüidade”, porque as pessoas confundiam as prostitutas com outras moças, “honestas”, “corretas” e “de família”, ou seja as “mulheres da sociedade” eram tomadas como meretrizes (Mazzariol, 1977, p. 11 e 67). Para a construção da nascente cidade moderna buscava-se seguir ao máximo os ditames vanguardistas europeus, os quais tornaram necessário expurgar todos os “males” urbanos que poderiam caracterizar a sociedade brasileira como “atrasada” ou mesmo “selvagem”. Obviamente, a prostituição foi considerada uma das principais características desse atraso, bem como toda sorte de aglomerações marginais ou das classes pobres , desde sempre consideradas como locais “desclassificados”, denominação associada à um modo de vida, gestos e atitudes, ligados à discriminação de classe, raça e de cor. Os relatos e documentos dos sanitaristas, médicos e da policia traçavam um cenário de horror associado à maneira de viver das classes populares e, principalmente, de ascendência africana, que justificariam as ações sanitaristas do Estado a longo da história (Frúgoli, 2000).
Na dissertação de mestrado Mal necessário: Ensaio sobre o confinamento da prostituição na cidade de Campinas, Mazzariol (1997) defende que a prostituição tinha uma utilidade especifica na sociedade da época: era considerada necessária ao bem estar da família burguesa e cristã, pois aliviava os sentimentos “mundanos” do homem-provedor do lar, que dessa maneira não “importunava“ suas mulheres, “um mal necessário para imunidade do lar à luxuria”. A prostituição não poderia simplesmente ser extinta, já que era uma “fatalidade da vida social” e de função preventiva para sociedade. A solução encontrada foi colocar a prostituição no seu “devido lugar”: confinada em uma parte periférica da cidade, distante dos valores que a urbanidade moderna desejava espelhar. Um movimento em sintonia com os padrões de segregação espacial que sofriam outros grupos sociais que, da mesma maneira que as prostitutas, não poderiam simplesmente ser apagados da paisagem urbana. A expansão periférica das cidades, quando acontecem os primeiros grandes investimentos na malha rodoviária que possibilitaram o crescimento da cidade para distantes periferias, possibilitou a re-territorialização não só das prostitutas como, também, das classes pobres e marginais. Para a exclusão desses segmentos foram usadas as justificativas de proliferação de doenças como a febre amarela ou a sífilis, com o argumento técnico de que era necessário “limpar” as moradias pobres e insalubres das áreas centrais, promovendo a expulsão dessa população para as periferias.
 
 
 
As prostitutas só poderiam ser aceitas em local bem distante. Assim se inicia a ação que foi chamada pelo "singelo" nome de OperaçãoLimpeza: uma operação do poder publico destinada a eliminar o meretrício da cidade, utilizando como instrumentos principais o planejamento urbano, a violência policial e a consenso da opinião pública por meio da mídia da época. Essa operação levou ao fechamento de cortiços, bares e casas de prostituição do centro da cidade, utilizando-se o argumento de que era necessário liberar espaço para as novas construções e para abertura de avenidas. Movimento alinhado com a realização de “acordos” com as donas de casas de prostituição, nos quais se negociava o translado de seus estabelecimentos para fora do perímetro urbano da cidade. Com as demais prostitutas, principalmente as que faziam o trottoir  nas ruas da cidade, aconteceu uma grande repressão para sua retirada do espaço urbano, por meio do uso da força e da violência policial, ancoradas no o argumento do alerta da sífilis, que auxiliava no discurso de que elas não estavam no lugar certo e deveriam sair. Juntamente a essas ações da policia, foi acordada com corretores imobiliários a determinação de um loteamento afastado da cidade, uma área despovoada, fora do perímetro urbano e onde não existissem residências, para re-localizar as casas de tolerância e as demais prostitutas. E o local foi encontrado: o Jardim Itatinga. 
 
 
 
Resumindo, a “limpeza” consistia em extirpar as prostitutas da cidade para seu confinamento em uma área despovoada, situada longe do perímetro urbano. A “Operação limpeza” atuou em todos os locais da cidade: restaurantes, bares etc, promovendo a total expulsão e confinamento dessas mulheres numa mesma área, sendo que já em 1967 instalava-se a primeira casa de prostituição do bairro (Mazzariol, 1976: p.11-24). 
 
 
 
“A segregação espacial da prostituição se define através de múltiplos processos segregatórios que se combinam, se articulam, se entrecortam, e assume características singulares em função dos contextos políticos, sociais, econômicos e culturais” (Feldman, 1989, p.56).
 
 
 
A partir daí efetiva-se uma disputa entre os poucos territórios flutuantes da prostituição no restante da cidade, contra um discurso que vai além da não-adequação ao conceito moral do que seria o uso correto do espaço público, para uma justificativa mordaz e absoluta, de que na cidade já existe um local destinado e “correto” para essas atividades. É muito comum escutarmos como argumento para retirada de um grupo de profissionais do sexo de determinada região que, estas, “deveriam estar no Itatinga”, facilitando ainda mais a segregação das prostitutas do perímetro urbano.
 
 
 
 
Homenagem ao dia da Prostituta no Itatinga

 
 
No dia 1 de junho de 2007 participei de uma homenagem ao dia internacional da prostituta no Jardim Itatinga. O trabalho consistia na distribuição de rosas e serenatas pelo bairro, numa performance chamada Os vagabundos, do Grupo de Teatro Boa Companhia
 
 
 
Era um dia de semana no começo da tarde. Mesmo assim havia muitos carros de clientes transitando devagar pelas ruas do Itatinga, onde as mulheres “batalhavam”. Muitas estavam nas calçadas, mas a maioria ficava nas varandas e portas das casas. A diversidade encontrada era muito grande, jovens e senhoras, de roupas extravagantes oucomuns, magras, gordas, altas e baixas. Havia algumas travestis, mas não havia michês (profissionais do sexo do gênero masculino). As mulheres paradas contrastavam com o movimento incessante dos clientes, dirigindo lentamente pelas ruas com a cabeça pra fora dos carros, mexendo com as garotas e chamando-as. O corpo das mulheres era totalmente exposto. Algumas usavam biquíni ou saias com decotes e vestidos extremamente curtos. Algumas exibiam os seios em pleno sol. Os tecidos eram coloridos, adornados com materiais chamativos, brilhantes e havia muita transparência. 

 
 
A intervenção consistia em se aproximar das mulheres que estavam nas ruas e varandas, cantar uma serenata e distribuir rosas. A maioria das prostitutas não sabia que dia 2 de junho era dia internacional da prostituta. Foi uma festa. Muitas se emocionavam; outras, ofereciam um “programa” de graça para os atores. Uma mulher me disse “é a primeira vez que ganho flores”. Algumas mulheres não saíram à rua enquanto passávamos homenageando as prostitutas pelo bairro, sendo que em muitas casas vimos as garotas observando nossa intervenção por trás de vidros lacrados, para as quais deixamos as flores na soleira da porta. 

 
 
 
De inicio causava certo choque caminhar por uma rua da cidade, aberta e supostamente pública, e ver outra dimensão de urbanidade. O confinamento espacial da prostituição em um lugar distante tornava-a ainda mais exótica e exagerada, excluída do agenciamento cotidiano entres as diversas redes urbanas. Nós, que não éramos nem profissionais do sexo nem clientes, éramos um corpo estranho circulando naquela cidade; éramos -- demarcadamente -- “outros”. Os clientes também não entendiam nossa presença: primeiramente, nos tomavam como garotas de programa e, depois, ao perceberem que não e, principalmente, que eu carregava uma câmera fotográfica, escondiam seus rostos dentro dos carros.  Em um dado momento um homem se dirigiu a nós e gritou: “aqui não é lugar de bagunça!”  Talvez referindo-se à idéia de que ali não se podia andar com uma peça de teatro com pessoas fantasiadas, tocando música e distribuindo rosas. Mas o termo “bagunça” se remetia ao fato de que nossa homenagem era uma desordem nas regras daquele espaço. As prostitutas eram “estranhas” no resto da cidade e, nós, “estranhos” na zona. 
 
 
 
Podemos encaixar o Itatinga na família de categorias para estudo etnográfico de Magnani (2002), por estar em um território claramente definido e delimitado por uma rede de relações. Bem como pela presença regular de membros com um código de reconhecimento e comunicação entre eles, pela qual seus freqüentadores não necessariamente se conhecem, mas se reconhecem como portadores dos mesmos símbolos. O Itatinga seria uma mancha, já que constitui um ponto de referência de uma atividade ou prática predominante e possui uma base física ampla permitindo a circulação de usuários de várias procedências, sem  laços estreitos (Magnani, 2002, p.22). Segundo o autor, a rede de relações instaura um código capaz de separar, ordenar e classificar; do qual pode-se dizer quem é e quem não é pertencente a determinado recorte da paisagem urbana. 
 
 
 
 
 
As Meninas do Centro
 
Atualmente, apesar da existência do Itatinga, muitas profissionais do sexo trabalham nas áreas centrais da cidade. Este estudo compreende, mais especificamente, as prostitutas que fazem ponto na Praça Carlos Gomes e na Praça da Catedral Metropolitana de Campinas. Essas duas praças estão localizadas em espaços privilegiados de permanência e circulação no centro da cidade. A Praça Carlos Gomes é geralmente um local de descanso com suas árvores frondosas, bancos e espaços sombreados. Ao contrario, a Praça da Catedral é um local de grande circulação de pessoas que se direcionam aos grandes magazines da região, aos ambulantes e aos terminais de ônibus próximos. São duas áreas estrategicamente escolhidas pelas garotas de programa por atrair uma enorme confluência de pessoas. Segundo Perlongher, os espaços de atuação da prostituição na cidade constituem muito mais uma característica de circulação do que de fixação: “pontos de 'fixitude', funcionam mais como eixos de distribuição, tanto populacional como retórico ou semântico das redes circulatórias por onde perambulam os sujeitos” (1987, p.126)
 
 
 
As prostitutas dessa região são muito diferentes da heterogeneidade encontrada no Itatinga. Na sua grande maioria são mulheres que trabalham por conta própria, com idade entre 30 e 50 anos, e fazem programas durante o dia, considerados baratos (preço entre 20 e 50 reais). À primeira vista, essas mulheres passariam por mulheres comuns, mães, domésticas, senhoras fazendo compra no centro da cidade. Grande parte delas sai de casa cedo para trabalhar, ficando o dia todo nos seus “pontos” e voltando para seus bairros no fim da tarde. Suas famílias, conhecidos e vizinhos não sabem ao certo em que elas trabalham, principalmente porque retornam ao lar no fim do horário comercial, como na maioria das jornadas de trabalho. Constantemente somos avisados pelos assistentes sociais para tomar cuidado com suas famílias, que na maioria das vezes não sabem da prostituição. Porém, as meninas sempre contam normalmente de seus familiares, filhos e maridos ou pedem para levar a maquina e tirar fotos; nunca pedem para manter sigilo ou esconder as fotografias. 
 
 
 
As mulheres se auto-organizam no espaço público dividindo-o em regiões de trabalho, concentrando-se em pequenos grupos de três ou quatro, geralmente em áreas sombreadas e de boa visibilidade (escadaria do banco, árvores da rua, bancada na esquina etc). Cada ponto possui uma região de abrangência demarcada e a prostituta “batalha” dentro dessas áreas de atuação, não sendo permitido invadir o espaço delimitado de outras profissionais. De acordo com Pasini (2001, p. 281) é por meio de negociações constantes entre as prostitutas que se estabelecem as regras pelas quais se constroem as fronteiras simbólicas entre um ponto e outro. Os pontos também são ordenados por um tipo de jornada de trabalho ao longo dos períodos do dia. As mulheres mais velhas trabalham nos melhores locais de circulação e visibilidade e as mais novas ficam com os piores lugares, seguindo uma espécie de hierarquia de acordo com a experiência no ramo e na região. É importante ressaltar que na bibliografia consultada se descreve esse mesmo tipo de organização hierárquica da localização dos pontos de acordo com a “temporalidade” e a “antiguidade” das prostitutas na região, em diferentes locais como Rio de Janeiro, Porto Alegre e Florianópolis.
 
 
 
 “As mulheres que trabalham há mais tempo em determinado ‘ponto’, estão hierarquicamente superiores às mais novas ou recentes no local; geralmente a antiguidade corresponde às mulheres mais velhas. (...) As mais jovens, portanto, normalmente disputam com as anciãs esses espaços, em grau de menor poder quanto à apropriação, justamente por terem normalmente maior valor no campo prostitucional ou chamar mais atenção da clientela” (Corona, 2007, p. 13).
 
 
 
Nesse sentido o local do ponto assume fundamental importância, já que são lugares estrategicamente selecionados. E por serem fixos asseguram o retorno da freguesia conhecida, ou facilitam a indicação daquela prostituta para um novo cliente. Desse modo se organiza o espaço onde estão localizadas as “prostitutas”, facilitando a abordagem dos fregueses. 
 
 
 
Entre as meninas do centro de Campinas existe também o papel da mãe da rua, que toma conta do espaço, apartando brigas entre as trabalhadoras, mediando o trato com a policia e protegendo-as de perigos de violência. Sua função é fundamental na manutenção do trabalho das prostitutas estudadas, que além de trabalharem numa área onde predomina a heterogeneidade urbana e são necessários constantes agenciamentos com os outros diversos elementos da cidade, não têm patrões ou cafetões para protegê-las. A mãe da rua é uma das cinco informantes que citei anteriormente, uma das mais ativas freqüentadoras da associação, sendo hoje eleita coordenadora geral da Associação Mulheres Guerreiras. Apesar de se considerar uma prostituta aposentada, afirmando constantemente que “saiu dessa vida”, as outras mulheres do grupo contam que ela continua se prostituindo. Mas ela insiste em explicar:
 
 
 
“Já sai dessa vida; não agüento mais. Desde os 14 anos;estou de saco cheio.(...) Quando meus velhos (apelido dado aos clientes) estavam vivos eu ainda ia para os hotéis, mas só com eles. Homem novo eu não tinha mais paciência. Depois esses velhos foram morrendo e ai eu parei de vez; não tenho mais saco. Agora eu faço a proteção das meninas aí na rua. Todo mundo me respeita; se tem briga o povo já vem me chamar” (depoimento dado pela informante “mãe da rua” durante uma reunião da Associação Mulheres Guerreiras, outubro/2006)

 
 
Estas “meninas” trabalham no centro há muitos anos (algumas trabalharam na zona quando jovens). Ficam sentadas na Praça e para o observador desatento, seriam classificadas como qualquer outra senhora comum no centro da cidade. Não usam roupas "indecentes" ou exageradamente decotadas para demonstrar seu ofício. Mas, de alguma maneira, não estão totalmente “disfarçadas”, visto que têm que conseguir seus clientes por meio de alguma figuração subjetiva. Que significações estas mulheres se utilizam para além dos estereótipos do que representa uma profissional do sexo, para não cair na expulsão e segregação que historicamente sofrem na cidade?.
 
 
 
“A roupa, a quantidade de maquiagem no rosto, a forma de abordagem do cliente, o tempo, o valor do programa e as ofertas de serviço são algumas regras componentes dos pontos [...] Através da exibição do corpo as prostitutas estão apresentando ao cliente e transmitindo um modo de compreender e exercer a prostituição. A forma como se vestem e maquiam comunica significados sociais”.(Pasini, 2001, p.282)
 
 
 
Uma das informantes, freqüentadora da associação, é uma mulher de 40 anos chamada Joana . Estávamos conversando e ela começou a reclamar de que ainda não tinha realizado nenhum “programa”. Segundo ela, a culpa era de sua vestimenta: neste dia ela teve de vestir uma calça porque suas saias estavam para lavar e dessa maneira estava impossibilitada de exibir seus “pernões” para os prováveis clientes do dia. Olhei para as outras mulheres. Realmente, não usavam roupas "indecentes", que fizessem o observador usual chegar a pensar “esta mulher é uma prostituta”; no entanto, a questão das pernas a mostra era regra. Eram saias comuns, não eram nem apertadas nem curtas, porém, a grande maioria das garotas de programa das praças exibia  suas pernas. Passei a observar detalhadamente as roupas das mulheres. Outro ponto corriqueiro eram as cores chamativas: pink, amarelo e vermelho. A maquilagem talvez fosse um pouco exagerada e algumas usavam perfume doce e exagerado. Desse modo, foi-se apontando a maneira pela qual estas mulheres construíam suas estratégias de sedução e o corpo se expunha, de alguma maneira. Um dia as meninas comentavam a história de uma prostituta que estava fazendo ponto com uma saia que deixava a “bunda de fora” e a mãe da rua, citada anteriormente, juntamente com a pressão de outras profissionais do sexo mandaram-na embora. Uma das monitoras que trabalham comigo, disse: “mas por quê? Se eu aparecesse com uma saia curta ali, no centro, duvido que alguém ia falar alguma coisa...”. As mulheres responderam prontamente: “mas você não é prostituta, se o pessoal ver a gente indecente no meio da rua vai logo proibir a mulherada de fazer ponto nas praças” (reunião da Associação Mulheres Guerreiras, fevereiro/2006). Esse momento também esclareceu outras demarcações utilizadas na relação corpo-cidade, principalmente na questão dos agenciamentos urbanos. As outras pessoas “sabem” que elas são prostitutas, mas as toleram desde que mantenham uma aparência aceitável no espaço público. Mais tarde, em outras observações, descobri que, realmente, a grande maioria das pessoas que freqüentam ou trabalham na região sabe que essas mulheres são prostitutas e que estas têm diversos tipos de relação com os outros trabalhadores circundantes aos seus locais de ponto, como acontece com qualquer trabalhador. Segundo Pasini, o ponto é um local privilegiado de sociabilidade, no qual as práticas sociais se estabelecem: 
 
 
 
“(...) é no ponto que o cliente e a prostituta encontram e negociam o programa, mas também é aí que elas estabelecem outras trocas e constituem outras relações – com clientes, com vendedores ambulantes, com moradores (...)” (Pasini, 2001, p. 281). 
 
 
 
Durante a escolha do nome da Associação de Profissionais do Sexo foi realizada uma votação, na qual as freqüentadoras da associação foram às praças pegar os votos das mulheres que estavam trabalhando. Nos dividimos em grupos e eu acompanhei o grupo da prostituta Joana, citada anteriormente. Quando estávamos saindo, a mãe da rua  gritou: “Joana! Passa no chaveiro meu amigo para pegar o voto dele! Ele quer muito votar...”. E quando passávamos com a urna fomos também à banca de revistas na qual um casal de idosos votou. Quando chegamos à banca, Joana falou: “Olha a votação do nome da associação que eu te falei: trouxe a urna especialmente aqui para vocês votarem”. Mais tarde ela me contou que quando fazia programa com algum desconhecido sempre pedia para este casal guardar o RG do cliente, como segurança. As donas dos hotéis de curta permanência da região, onde as meninas fazem os “encontros sexuais” (termo de Feldman, 1989: p.18), também estavam esperando sua vez de votar (votação do nome da Associação Mulheres Guerreiras, fevereiro/2006). Isso demonstrou como as típicas redes e agenciamentos que se criam no espaço urbano heterogêneo acontecem mesmo quando supostamente não aconteceriam por um constituir um trabalho que estaria sendo repudiado pela sociedade. E também demonstra as negociações que nele ocorrem: uma mulher comum de saia extremamente curta poderia passar ali e ninguém a proibiria de circular, a prostituta não; ela deve se manter “mimetizada”, para poder permanecer no espaço. Para Corona (2007), o ponto delimita fronteiras físicas mas, principalmente, simbólicas, que invadem um campo de relações de sociabilidade e estabelece espaços portadores de valores: “entendo o ‘ponto’ não como um ponto fixo no espaço, mas como uma apropriação do espaço público e seu entorno”. E para estabelecer essa “apropriação” é necessária uma série de negociações e o estabelecimento de regras nos espaços contíguos ao ponto. Dessa forma se estabelecem redes compostas de aspectos diferenciados das vidas dessas mulheres, misturando-se práticas profissionais, de lazer e domésticas, que transbordam a atividade que exercem, além de sublimar a vulnerabilidade do espaço público, por estabelecem um maior grau de proteção por meio da rede de colegas e amigos, o que não existe nos locais isolados (Corona, 2007, p.10-17).

 
 
Segundo Arantes Neto, no espaço comum em que circulam/habitam diversos grupos sociais, vão sendo construídas fronteiras simbólicas que “separam, aproximam, nivelam, hierarquizam” ou ordenam categorias e suas mutuas relações. Dessa maneira, os lugares sociais formariam um “gigantesco e harmonioso mosaico”, delimitado por fronteiras simbólicas, zonas de contato, nos quais se situa uma “ordem moral contraditória”, em que as moralidades estariam em “guerra” (Arantes Neto, 2000, p.106-128). 

 
 
 
O centro da cidade oferece, como também afirma Corona (2007, p. 8), muitos espaços de sociabilidade, combinando relações de negociação e de solidariedade, além de propiciar a possibilidade de resolução de diversas obrigações cotidianas e de lazer nos serviços que são encontrados somente nas regiões centrais das cidades.

 
 
 
As revitalizações do Centro e as prostitutas
 
 
Apesar do estabelecimento de todos estes agenciamentos de maneira a se manterem no ambiente “moral“ da cidade e continuarem oferecendo seu serviço, as prostitutas do centro ainda são alvo de ataques e de exclusão. O ultimo aconteceu em outubro de 2006, quando a Prefeitura Municipal de Campinas fechou os hotéis de curta permanência localizados no centro da cidade, aos quais as profissionais levavam seus clientes, alegando a ilegalidade dos mesmos. No entanto, o verdadeiro motivo consistia em acabar com a prostituição na área central, visto que se pretende a “revitalização” do centro da cidade. O alvo desta medida do poder público era, mais uma vez, retirar as profissionais do sexo do espaço urbano. Em Campinas existe uma lei municipal que proíbe o alvará de funcionamento de motéis (hotéis de curta permanência) no centro da cidade. Assim, os hotéis no qual se trabalham as prostitutas do centro encontravam-se facilmente ameaçados de fechamento por um impasse legal: são registrados como hotéis mas na prática funcionavam como motéis. Mesmo insatisfeitas com esses estabelecimentos - escutamos muitas vezes as profissionais do sexo reclamarem de instalações inadequadas, falta de higiene dos quartos, preço da locação, maus tratos dos funcionários e donos de hotéis, etc - o fechamento desses espaços significaria perder um local seguro para realizar os programas, próximo aos “pontos” nos quais trabalham e costumam freqüentar seus clientes.  Por essa razão as prostitutas que trabalham no centro de Campinas se mobilizaram em um ato em frente à Prefeitura de Campinas, portando máscaras  e faixas nas quais reivindicavam seu direito de permanecer trabalhando e freqüentando o centro da cidade, com o acesso à segurança dos hotéis para realizar seu oficio, próximas a infra-estrutura urbana privilegiada, próximo aos locais de transporte publico, etc. Segundo Smith (2000, p.149) as lutas baseadas no lugar podem gerar uma resposta mais progressista na medida em que grupos sociais anteriormente fragmentados se unem numa comunidade definida politicamente, fato observado pela grande participação das “meninas” nas reuniões da associação depois desse evento.

 
 
Como resultado da passeata a Prefeitura abriu uma negociação entre os donos de hotéis e a Secretaria de Urbanismo; serão pensadas as situações de violência junto à comissão de ação social da Prefeitura e junto ao apoio de vereadores se abrirá um processo de revogação da lei que impede o estabelecimento de motéis no centro da cidade. Atualmente os hotéis continuam funcionando.

 
 
 
A presença da prostituição em áreas previstas para “revitalização” vai no sentido contrário do que se pretende de um espaço “revitalizado”, já que são locais nos quais se pretende implantar um comércio de luxo para classes abastadas, para o turismo e para uma mão de obra altamente especializada, contando com serviços de ponta conectados aos sistemas internacionais. A permanência do que os planejadores e urbanistas chamam de “mazelas urbanas” (moradores sem-teto, camelôs, catadores de lixo e prostitutas) evidentemente dificulta a constituição desses serviços, sendo necessário bani-los, gerando o efeito da gentrificação: modificando o lugar do ponto de vista da composição social e dos usos do espaço (Rubino, 2004, p.289). Segundo a garota de programa integrante da ONG Davida e ativista dos direitos das profissionais do sexo, Gabriela Leite, as primeiras pessoas a serem expulsas, quando se iniciam os processos de revitalização das áreas centrais, são as prostitutas (Leite, 2006).

 
 
 
Dessa forma, a prostituição aparece associada à outros grupos da cidade dita “marginal”, sendo constantemente relacionada à desordem social, clandestinidade, irregularidade, bem como à classificação recorrente de “patologia social”, ocupando na cidades territórios ligados à marginalidade e segregados da organização urbana formal (Feldman, 1989, p.6). 
 
 
 
Para além da gentrificação, as prostitutas sofrem, também, uma série de regulamentações ordenadas por ações disciplinatórias do uso do corpo no espaço urbano. Desde sempre a repressão da prostituição na cidade foi regulada por normas ligadas a constrições ao corpo. As primeiras regulamentações (1890-1900), não proibiam o meretrício, mas designavam que as profissionais seguissem uma decência no trajar, o horário correto para abertura de janelas e para permanência na rua, além de regras para presença em lugares públicos (Feldman, 1989, p.33). Mais tarde, no período conhecido como “higienismo”, percussor da “operação limpeza”, a prostituição seria vista como um dos elementos da desordem urbana e, nesse sentido, as intervenções urbanísticas estabelecem mecanismos para sua disciplina no espaço da cidade (Feldman, 1989, p.40). Nessa ordenação o corpo da prostituta demonstra uma relação direta com a cidade, na qual as ações urbanas interferem diretamente na presença de seu corpo no espaço. 
 
 
 

 
 
Cidade, Corpo e Identidade.
 
 
Para as mulheres que trabalham no centro, é no local público que se dá a abordagem e primeiro contato com o cliente e, depois, nos hotéis e pensões, ocorre o ”encontro sexual”. No entanto, no bairro do Itatinga as prostitutas esperam os clientes nas janelas ou dentro das casas noturnas e os encontros iniciais e sexuais acontecem dentro dessas boates. E, geralmente, as prostitutas do Itatinga moram nessas mesmas boates, o que aponta outra diferença fundamental em relação às trabalhadoras do centro: as praças e ruas são apenas locais de trabalho, mais tarde voltam para suas casas, geralmente em bairros distantes do centro. Para Feldman (1989, p.19) a sobreposição das funções de trabalho e moradia no interior dos estabelecimentos definem limites rígidos impostos às  mulheres prostitutas de uso do espaço público, caracterizando os territórios de prostituição enquanto espaços de exclusão. O nível de controle da prostituição é, conseqüentemente, um nível de inserção urbana. 
 
 
 
Gabriela Leite (2006) afirma que as zonas confinadas, como o Jardim Itatinga, contribuem para a marginalização e a estigmatização do trabalho da prostituta, por estabelecerem guetos. Grande parte das mulheres que trabalham no Itatinga veio diretamente do interior do estado para morar no bairro e não conhecem a cidade de Campinas; permanecem todo o tempo dentro dos limites do Itatinga, que apesar de possuir serviços públicos básicos não possui toda infra-estrutura urbana que pode ser encontrada no resto da cidade. Isoladas em um bairro no qual vivem, na maioria, prostitutas e freqüentado por homens que vão até lá para usufruir desse serviço, essas mulheres não se relacionam com a diversidade urbana encontrada nos outros locais da cidade. Ao saírem do bairro, sequer podem dizer onde moram, já que o local vai associá-las ao trabalho que exercem e então poderão sofrer de toda sorte de discriminações. Seu direito à cidade é constantemente violado, impedindo-as de se apropriarem da cidade como cidadãs, sendo confinadas a circular, morar e trabalhar em uma área isolada. Sua presença na cidade não é aceita facilmente. No confinamento do Itatinga, contudo, elas se sentem “seguras” e podem ser “elas mesmas”. Perlongher (1991, p.12) completa que acontece uma desterritorialização em relação aos códigos familiares, ou “normais” do espaço urbano, seguido de um movimento de reterritorialização dos novos códigos, ou códigos de gueto (de que maneira atuar no espaço, que roupas vestir, como percorrer ou deslocar-se ,etc): “o ato da transgressão, seu salto à exterioridade ou a certa relativa exterioridade da ordem, marca o desencadeamento de uma nova codificação” (Perlongher, 1991, p.12). Regras alheias à nossa visita ao Itatinga no dia da prostituta, o que causou o desconforto com nossa presença. 
 
 
 
As mulheres do centro têm suas casas em outros pontos da cidade, circulam de seus bairros até a área central, onde fazem o ponto nas praças e os “encontros sexuais” nos hotéis da região. Estas mulheres mantêm diversas relações corporais com a cidade, para além de seu oficio. São mulheres, mães, filhas, campineiras, compradoras, amigas, colegas, namoradas e prostitutas. De acordo com Pasini, da mesma maneira que a percepção do corpo está ligada à experiência vivida por elas, este é portador dos significados sociais e é por meio do corpo que a prostituta comunica sua diferenciação entre a vida pessoal e a profissional.
 
 
 
 “O corpo da prostituta constrói a interpretação de suas práticas e, ao mesmo tempo, é comunicador dessas práticas. Através de seus corpos as prostitutas compartilham tanto sua vida sócio-cultural como suas relações sociais.” (Pasini, 2001, p.296). 
 
 
 
Pasini diz que o fato da mulher prostituta não ter outra relação fora da rua, também reflete nas suas práticas como profissional, já que “a linha divisória entre a vida profissional e a vida particular pode ter, em alguns momentos, outro significado” (Pasini, 2001, p.288), uma vez que diferenciam suas práticas sociais por meio de suas práticas corporais. As informantes pareciam mostrar, constantemente, uma necessidade de relatar suas tarefas domesticas e familiares como, por exemplo, que sustentam suas famílias com esse trabalho: “Antigamente as prostitutas tinham cafetão, hoje não; nós temos família. Filhos, pais, mães, que sobrevivem do nosso trabalho, com dignidade. Eu vejo assim, entendeu? ” (discurso de fundação da Associação Mulheres Guerreiras, setembro de 2007, dado pela informante Salete) . E para essas justificativas serem demarcadas se fazia a comprovação diária da diferença de relacionamento com o seu corpo, uma espécie de divisor simbólico, entre os clientes e sua família: “que lhes permite construir uma”organização social” e, ao mesmo tempo, transitar entre a vida profissional e a vida particular”. (Pasini, 2001, p.295-297).
 
 
 
No estudo realizado por Pasini, as diferenças simbólicas estabelecidas pelas profissionais do sexo para demarcar a diferença de suas práticas profissionais e afetivas é o uso ou não do preservativo. No nosso caso, a diferença fundamental aqui proposta é o local de trabalho, a localização urbana dos “pontos” de trabalho dessas mulheres. De que maneira o corpo, objeto de trabalho e interface social, e o espaço urbano se espacializam, ou se tornam um só. Para a prostituta, seu corpo, além de seu instrumento de trabalho, é sua interface com o espaço urbano. De acordo com Frangella (2004), esses corpos errantes: pessoas da rua, nômades, população de rua, itinerantes, trabalhadores de rua, têm seu corpo “como último território”, no qual “singularizam-se as manifestações de sua experiência e sua significação na cidade”. O corpo é ao mesmo tempo físico, simbólico, político e social, na sua relação com outros corpos urbanos e na dimensão espacial e social das ruas da cidade. A autora também afirma que o corpo mantém relações com a cidade “mutuamente definidoras”, numa interação continua de transformações, inscrições e re-territorializações. As profissionais do sexo teriam o corpo como codificador central de suas práticas de sobrevivência e de suas relações sociais. 
 
 
 
As maiores lutas de libertação da mulher foram realizadas na escala do corpo: o controle de fertilidade, as políticas de aborto, punições a violência sexual sofridas pelas mulheres, maneiras de se vestir ou que lugares o corpo poderia acessar da escala urbana, saindo da escala “doméstica”, para as ruas, que eram um espaço dos homens. Segundo Smith estas lutas giram em torno do “acesso ao corpo das mulheres, no trabalho que as mulheres fazem com seus corpos e a fronteira entre o controle individual e estatal sobre o corpo” (Smith, 2000, p.145). Dessa maneira o “corpo” das prostitutas que trabalham no centro da cidade de Campinas e das prostitutas que trabalham no Jardim Itatinga são totalmente diversos, visto que seu acesso à cidade, ou sua escala de direito ao urbano são totalmente diferentes. No caso das profissionais do sexo do centro, sua profissão não delimita a atuação de seu corpo. Acessam a gama complexa de infra-estrutura e redes de sociabilidade, não só do centro em que trabalham, mas também de seus bairros: “através do seu corpo, elas vivenciam, as marcas dessa distinção, criando fronteiras de intimidade que separam (e organizam) as posições que esses relacionamentos ocupam em suas vidas” (Pasini, 2001, p.297).Talvez essas sejam as razões que possibilitaram realizarem atividades de valorização de seu trabalho como a criação da Associação de Profissionais do Sexo visto que, segundo Arantes Neto, sentir-se parte de uma comunidade política é algo que impõe a formulação “do quê” se reivindica como direito, uma questão de pertencimento ao comprometer-se com interesses definidos como universais na sociedade da qual se faz parte (Arantes Neto, 2000, p.135-136). O Itatinga, apesar de conter mais de seis vezes o numero de prostitutas do centro, não possui nenhuma organização parecida. Para as prostitutas confinadas neste bairro, seu corpo é praticamente definido pelo seu oficio. Porque a “cidade” que lhes cabe, o espaço urbano que é seu, o bairro Jardim Itatinga, também é definido pela prostituição. Sua cidade é confinada, isolada e demarcada e dessa maneira também é seu corpo. Estas mulheres estão mais suscetíveis a violências sexuais de trabalho pelos clientes ou pelos cafetões, bem como permanecem extremamente dependentes dessas pessoas. A grande maioria das garotas paga algum tipo de tributo aos cafetões, às donas das boates ou casas de prostituição e não trabalha individualmente. A estigmatização sofrida pelas prostitutas é ainda mais fortemente sentida por essas mulheres. Além de estarem isoladas do acesso a toda infra-estrutura urbana e diversidade da cidade em que vivem, estão limitadas a usar ou comprar objetos encontrados no bairro. Podemos concluir que estes espaços de gueto homogeneízam sua estrutura, facilitando o acontecimento de ações de cunho opressor às mulheres prostitutas. 
 
 
 
Segundo Perlongher (1987), não interessa a idéia de identidade que define os sujeitos individuais, mas os lugares e a territorialidade estabelecidos pela pratica urbana, uma vez que o território estabelece “perfis psicossociais”. Se a cidade é parte de nós mesmos, nosso corpo é também cidade. Até que ponto as sensações de segregação e confinamento sofridas no espaço urbano podem atingir a constituição do próprio eu, ou formação individual de consciência? Bourdieu (1999) afirma que o espaço habitado, ou apropriado, funciona como uma espécie de simbolização espontânea do espaço social. Portanto, o direito à cidade possui uma relação direta com o domínio de seu corpo, da composição de sua identidade e de seu poder de pertencimento urbano. Dessa maneira podemos pensar a importância do local em que convivemos ou trabalhamos, ou seja, em que habitamos, para constituição de nossa personalidade, ou da constituição da própria visão que temos do mundo e de nós mesmos.

 

Notas

Em toda bibliografia estudada esta categoria nativa se repete, independente da idade ou do local, de Porto Alegre ao Rio de Janeiro. 
  Este termo é referente ao verbo "trotar", ou seja, andar a trote, que é o andamento natural dos cavalos, entre o passo ordinário e o galope.  Significa fazer uma caminhada,em praça ou alameda, um tipo de passeio em que, ao dar voltas em um mesmo lugar, as pessoas aproveitavam para se conhecer. Coloquialmente virou "fazer trottoir", para designar as garotas de programa nas calçadas ou perambulando pelas ruas à busca de fregueses. No entanto as próprias prostitutas usam mais o termo ”batalhar na rua”.
    Os nomes foram mudados de maneira a proteger o direito ao sigilo das trabalhadoras do sexo.
A Associação Mulheres Guerreiras distribuiu máscaras de carnaval na passeata porque muitas manifestantes omitem sua forma de trabalho de suas famílias, namorados e parentes e, nesse sentido, sentiam-se ameaçadas pela visibilidade em torno da passeata. 
 

Bibliografia

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BOURDIEU, Pierre . Efeitos de Lugar. In: BOURDIEU, Pierre (org.). A miséria do mundo. Petrópolis – RJ, Editora Vozes, 1999 p. 159-166
CORONA, Joana Pagliosa . Ocupações e (re)significações do espaço público urbano por mulheres prostitutas de rua no centro de Florianópolis. In: FICYURB - FIRST INTERNATIONAL CONFERENCE OF YOUNG URBAN RESEARCHS, 2007, Lisboa. FICYUrb, 2007. v. 1.
FELDMAN, Sarah. Segregações Espaciais Urbanas: a Territorialização da Prostituição Feminina em São Paulo. Tese (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) FAU/USP, São Paulo,  1989. 
FRANGELLA, Simone Miziara. Corpos Urbanos Errantes: uma etnografia da. corporalidade de moradores de rua em São Paulo. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) IFCH/UNICAMP, Campinas, 2004.
MAGNANI, J. Guilherme. De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana. In Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol.17. n.49, junho de 2002.
MAZZARIOL, Regina Maria. Mal necessário: Ensaio sobre o confinamento da prostituição na cidade de Campinas. Tese (Mestrado em Antropologia Social) - IFCH/UNICAMP, Campinas, 1977.
LEITE, Gabriela. (entrevista) Daspu: “uma grife surpreendente". In: Revista Caros Amigos nº 106. São Paulo: Editora Casa Amarela, Janeiro de 2006. 
PASINI, Elisiane. As fronteiras da intimidade: uso de preservativos entre prostitutas de rua. In: BRUSCHINI, Cristina; Pinto, Céli Regina (Orgs.). Tempos e lugares de gênero. São Paulo: FCC/ Ed. 34, 2001. p. 275-300.
PERLONGHER, N. Primeira versão - Territórios marginais, nº 27. Campinas: IFCH/UNICAMP, 1991.
PERLONGHER, N. O negócio do michê: a prostituição viril. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1987. 
PISCITELLI, A. G. . Prostituição e Trabalho. In: Maria Ednalva Bezera de Lima; Ana Alice Alcantara Costa; Albertina Costa; Maria Betania Ávila; Vera Lúcia Soares. (Org.). Transformando as relações trabalho e cidadania, produção, reprodução e sexualidade. Salvador: UFBA/FFCH/CUT, 2007, v. 1, p. 183-195. 
Rubino, Silvana. “Gentrification”: Notas sobre um conceito incômodo. Oculum ensaios: Revista de Arquitetura e Urbanismo - edição especial “Urbanismo: Dossiê São Paulo – Rio de Janeiro. Campinas: PUCCAMP/PROURB, 2004. p. 287-296
SMITH, Neil. Contornos de uma política espacializada: veículos dos sem teto e produção de escala geográfica. In ARANTES, A. A. (org.) O espaço da diferença, São Paulo: Papirus, 2000, p. 132-175.
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